Faltam uma melodia aí, mas vá lá…

08/02/2010

Ah, essa vontade boba de escrever bobagens

Essa coisa louca de contar vantagens

De contar vantagens num silêncio mudo

E misturar tudo só pra você ver.

Ah, esses acordes chatos que não se engrenam

esses raios fortes que num me amorenam

essa sede velha de trocar palavras

Lavras, lavras,

um pedaço bom de terra sem açúcar

Que faz mal pros dentes e não traz vantagem

Não, vantage’alguma; vá boa viagem, moça.

Fluxo de consciência mudo passa rápido

Que o bonde anda e já são mais de onze horas

E já vão pra fora todas as idéias

Elas, elas, é melhor que vão.

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Uma pretensão:

29/01/2010

Conversei com uns amigos a respeito disso e eles me convenceram a trabalhar em tiras em quadrinho de verdade (não por acaso, junto deles), mas eis a idéia, desencadeada por (a) meu amor por tirinhas e (b) minha falta de capacidade para o desenho:

Um texto que remetesse às tiras em quadrinho. Mesma leveza, mesma rapidez e, talvez, algum viéz de comicidade, vez ou outra. Nada tão fechado em si mesmo quanto um microconto, mas não tão longo quanto minhas tão queridas crônicas (queridas porque gosto de lê-las, não creio ter produzido nenhuma particularmente interessante até hoje).

Espero não receber uma onda de cartas furiosas protestando contra essa minha pretensão atual, ainda mais quando eu resolver publicar aqui algumas das “tirinhas em prosa” que acabarem saindo. As tirinhas de fato serão eventualmente publicadas num blogue que tenho em conjunto com meus amigos e eu posso até linká-las daqui, algum dia (quão bizarro é fazer propaganda para leitores imaginários?).

Nota mental (para o futuro):

01/09/2009

Escrever uma estória de capa e espada (e desenvolver um público cativo de leitores regulares, mas isso já é mais complicado)

Amém

Quando a menina acordou

31/08/2009

A menina acordou naquele dia, que prenunciava sorvetes e piscina depois da aula, e surpreendeu-se ao perceber que o monstro embaixo da cama não era um monstro, mas um rapazinho um pouco mais novo que ela e meio gorducho e com um grande gorro vermelho e um sorriso e olhinhos brilhantes.

Ela não gostou muito disso. Porque isso de ser baixinho e gorducho tudo bem, que ela tinha uma amiga quase assim, e isso de gorro vermelho e sorriso era normal, o papai Noel usava desses, certo?, mas, afinal, um rapazinho não pode ficar dormindo e fazendo barulho a noite inteira no quarto dela! ela já era quase mocinha, segundo a mãe.

Mas o rapazinho disse que nada disso, que ele não era exatamente um rapazinho, mas um fruto da imaginação, e que a mãe nunca tinha impedido que vegetais dormissem no quarto dela.

E a mãe não entendeu nada quando ela perguntou se podia ser amiga de vegetais, ao irem juntas de carro pra escola (porque as vezes a mãe ia levar ela, se dava tempo ou a tia não podia); e a mãe disse que tudo bem, mas que ia ser difícil porque a maioria dos vegetais não falava e nem jogava ou dava abraços, que são coisas que a menina apreciava nos amigos.

E ao chegar na escola a menina viu que o rapazinho estava sentado no gira-gira – mesmo já sendo hora de ir pra aula – e foi dizer pra ele o quanto era importante falar e jogar e dar abraços, e que, sendo ele um fruto, ele não ia poder fazer isso, porque foi o que disse a mãe.

Mas ele respondeu que falar ele falava e que sabia alguns bons jogos, e podia ensinar mais alguns, e que ia ser fácil aprender a parte dos abraços, se ela apresentasse os outros amigos dela e mostrasse como fazer.

E ela disse que tudo bem e foi pra aula. Mas ele não entrou, porque o diretor não permitia estudantes vegetais, nem que fossem frutos da imaginação.

Puque e o pão de queijo

09/08/2009

“Ora, ora, se não é sua alteza rebelde, lorde Puque” disse uma voz arrastada, mas esperta. O dono da voz era alto, o cabelo castanho começando a rarear. Usava um casaco pesado e, curiosamente, apesar do tempo frio e nublado que fazia naquele dia, um par de óculos escuros.

Lorde Puque gostava de tomar café ali porque era uma rua movimentada, cinzenta e cheia de prédios grandes, homens com cabelos compridos e brincos não eram tão estranhos por ali, e ele fazia o máximo para que seus trajes se misturassem ao da multidão. Além do mais, o pão de queijo do seu Juca era admiravelmente saboroso.

Apesar de suas precauções, porém, alguém o encontrara. Seria alguma armação do pai ou apenas uma trama xenofóbica de algum inimigo humano desconhecido? Oh, bem, deixaria essas questões para mais tarde.

“Devo dizer, meu amigo plebeu” respondeu o Duende “que acreditei, a princípio, que você fosse um enviado da Força Tarefa Mundial… Mas essa arma no seu bolso não parece feita para paralisar, eh?” O homem alto respondeu com um sorriso.

“Foi o que imaginei. Não é claro para mim, porém, por que não um tiro seguro a distância? Quer um dos meus pães de queijo, por acaso? Terá, ao menos, a decência de pagar minha refeição final?”

Outro sorriso. E um clique desagradável em algum ponto do casaco. “Achei que poderíamos dar um passeio antes, milorde. Sabe como são caros os serviços de um silenciador de imprensa, e quero a recompensa toda para mim. Além do mais, consegui um serviço extra com um cientista interessado na anatomia dos duendes; vai ser mais fácil levar seu corpo até ele se já estiver dentro do carro que providenciei para isso.”

Puque suspirou. E mordeu o pão de queijo. E tomou um gole de chocolate quente. E suspirou, de novo, tentando enxergar os olhos atrás das lentes. “Deixe-me dizer o que vai acontecer, caçador humano: Você vai sorrir mais uma vez, só que mais ameaçadoramente, e dizer pra eu vir logo pro carro. Eu farei alguma piada sobre a conta, mas certamente será fraca, não estou com tempo suficiente aqui. Então, me recusarei a me levantar, e sugerirei que ligue logo pra seu silenciador de imprensa. Você vai tirar do bolso, não seu celular, mas sua pistola.

“Nessa hora, eu moverei meu braço tão rapidamente que seus olhos humanos mal poderão me ver. Lhe desarmarei e derrubarei, em seguida, com um soco certeiro no nariz, que vai ficar doendo por meses. Você ficará inconsciente. Gritarei à filha do seu Juca, ali no caixa, ‘o pão de queijo, hoje, é por conta dele’. Ah! Está aí a piada sobre a conta! Podemos pular ela então e…”

“Cale a boca, Duende!” gritou o homem alto, sacando a arma e apontando entre os olhos de Puque. “Vocês não conseguem mover os braços mais rápido que o olho humano! Pelo visto, não conseguem parar de falar, também! Agora, para o carro!” “Não acabei de lhe explicar o plano? Eu não vou a nenhum…”

Os clientes olharam assustados. E a filha do seu Juca, no caixa, estava prestes a gritar quando o estalo do tiro silenciou a todos.

“Tudo bem eu… admito que menti sobre… sobre a parte do movimento…” disse Puque. Estendido no chão, dando seus últimos suspiros, o homem alto olhava para o Duende, que acabara de se levantar, também com uma pistola em mãos.

Antes de piscar para o caçador e transformar-se em um cachorro e sair correndo, Puque gritou para a filha de seu Juca, que estava no caixa, “O pão de queijo, hoje, é por conta dele!”

Sim, meus amigos

05/08/2009

Respondendo a perguntas:

Sim, a estória da flauta mágica continua.

É que eu escrevo devagar, conformem-se com isso. Aliás, conste nos autos que eu provavelmente postarei outras estórias simultaneamente ao desenvolvimento desta. E que a idéia é essa mesmo.

Amém

A flauta mágica

04/08/2009

Uma capa preta – porque uma capa preta é um modo quase tão bom de se começar uma estória quando “Era uma vez…”, e, ainda por cima, um pouquinho mais original-, uma capa preta se arrastava pela areia quase branca. O dia estava para nascer e o céu estava rosado. Não muito longe, à direita da capa preta, do capuz preto e do homem que estava por baixo deles, havia várias pequenas cabanas brancas e redondas e que se confundiam com a areia, se você fosse olhar mais de longe.

A capa preta se movia com velocidade, porque o homem estava com pressa. Tanta pressa que nem ele, nem o estranho barbudo que passou alguns minutos depois, seguindo suas pegadas invisíveis, repararam num objeto cilíndrico brilhante, uma flauta mágica, que caiu de seu bolso.

O que era uma pena. O homem da capa preta ficaria muito triste ao perceber que perdera o presente que lhe dera sua amada. Ele gostava de tocar músicas pra ela, e precisava daquela flauta. Ele choraria ao se dar conta e pensaria “como vou tocar quando encontrá-la?”.

Também era uma pena que o estranho barbudo não tivesse encontrado a flauta. Se o fizesse, talvez aprendesse mais das capacidades de seu oponente e pudesse entender exatamente porque ele estava tão apressado.

No fim das contas, logo depois do sol nascer, os dois já não estavam mais à vista. Um menino, que vinha da aglomeração de pequenas cabanas brancas, conduzindo alguns quadrúpedes esquisitos na direção das pastagens na Grande Montanha, encontrou a flauta e a guardou numa bolsa de couro que carregava.

Depois perguntaria à mãe o que era aquilo.

No início

02/08/2009

No início era a letra, E a letra se fez palavra, E as palavras se fizeram texto, E o texto ficou uma droga.

Mas uma droga divertida, mesmo assim. E, no fim das contas, ninguém se importa muito com a qualidade quando há doses suficientes de diversão.

Sobre essas premissas se baseiam este blogue que lêem agora. Não que ele tenha qualquer pretensão a ser necessariamente uma droga (ou divertido), mas, caramba!, não é como se custasse – além de tempo e neurônios – tentar.

Saibam também que, para meu conforto, tudo o que for postado neste blogue – inclusive as premissas básicas – será passível de edição em trabalhos futuros. Há, ainda, a forte possibilidade de vocês se confrontarem mais com trabalhos metatextuais do que com textos com um conteúdo em si (como agora).

Mas vocês são fortes, tenho fé, e eventualmente conseguirão se divertir com sinceridade. Se não neste blogue mesmo, garanto que os ligarei a outros com um conteúdo mais sério, artístico e, quem sabe, divertido. (deve ter algum lugar por aí onde eu faça isso, ainda não investiguei)