“Ora, ora, se não é sua alteza rebelde, lorde Puque” disse uma voz arrastada, mas esperta. O dono da voz era alto, o cabelo castanho começando a rarear. Usava um casaco pesado e, curiosamente, apesar do tempo frio e nublado que fazia naquele dia, um par de óculos escuros.
Lorde Puque gostava de tomar café ali porque era uma rua movimentada, cinzenta e cheia de prédios grandes, homens com cabelos compridos e brincos não eram tão estranhos por ali, e ele fazia o máximo para que seus trajes se misturassem ao da multidão. Além do mais, o pão de queijo do seu Juca era admiravelmente saboroso.
Apesar de suas precauções, porém, alguém o encontrara. Seria alguma armação do pai ou apenas uma trama xenofóbica de algum inimigo humano desconhecido? Oh, bem, deixaria essas questões para mais tarde.
“Devo dizer, meu amigo plebeu” respondeu o Duende “que acreditei, a princípio, que você fosse um enviado da Força Tarefa Mundial… Mas essa arma no seu bolso não parece feita para paralisar, eh?” O homem alto respondeu com um sorriso.
“Foi o que imaginei. Não é claro para mim, porém, por que não um tiro seguro a distância? Quer um dos meus pães de queijo, por acaso? Terá, ao menos, a decência de pagar minha refeição final?”
Outro sorriso. E um clique desagradável em algum ponto do casaco. “Achei que poderíamos dar um passeio antes, milorde. Sabe como são caros os serviços de um silenciador de imprensa, e quero a recompensa toda para mim. Além do mais, consegui um serviço extra com um cientista interessado na anatomia dos duendes; vai ser mais fácil levar seu corpo até ele se já estiver dentro do carro que providenciei para isso.”
Puque suspirou. E mordeu o pão de queijo. E tomou um gole de chocolate quente. E suspirou, de novo, tentando enxergar os olhos atrás das lentes. “Deixe-me dizer o que vai acontecer, caçador humano: Você vai sorrir mais uma vez, só que mais ameaçadoramente, e dizer pra eu vir logo pro carro. Eu farei alguma piada sobre a conta, mas certamente será fraca, não estou com tempo suficiente aqui. Então, me recusarei a me levantar, e sugerirei que ligue logo pra seu silenciador de imprensa. Você vai tirar do bolso, não seu celular, mas sua pistola.
“Nessa hora, eu moverei meu braço tão rapidamente que seus olhos humanos mal poderão me ver. Lhe desarmarei e derrubarei, em seguida, com um soco certeiro no nariz, que vai ficar doendo por meses. Você ficará inconsciente. Gritarei à filha do seu Juca, ali no caixa, ‘o pão de queijo, hoje, é por conta dele’. Ah! Está aí a piada sobre a conta! Podemos pular ela então e…”
“Cale a boca, Duende!” gritou o homem alto, sacando a arma e apontando entre os olhos de Puque. “Vocês não conseguem mover os braços mais rápido que o olho humano! Pelo visto, não conseguem parar de falar, também! Agora, para o carro!” “Não acabei de lhe explicar o plano? Eu não vou a nenhum…”
Os clientes olharam assustados. E a filha do seu Juca, no caixa, estava prestes a gritar quando o estalo do tiro silenciou a todos.
“Tudo bem eu… admito que menti sobre… sobre a parte do movimento…” disse Puque. Estendido no chão, dando seus últimos suspiros, o homem alto olhava para o Duende, que acabara de se levantar, também com uma pistola em mãos.
Antes de piscar para o caçador e transformar-se em um cachorro e sair correndo, Puque gritou para a filha de seu Juca, que estava no caixa, “O pão de queijo, hoje, é por conta dele!”